quarta-feira, 15 de abril de 2009

A caixa de doces

Hoje tive um sonho, em que uma amiga me encontrou e deu a mim uma caixa com pequenos docinhos, cuja variedade me interessou. Cada um consegue tocar a minha palatabilidade de forma diferente. Mais açúcar, mais amargo. Denso, firme. Uma crosta que pode ser rompida com dificuldade, e que quando o consegue libera um caldo doce ao paladar. Tal rompimento é demorado, mas a fluidez interior é dotada de leveza, dulçor e ternura. Faz-me lembrar que a dura casca sempre é um bom desafio. Alguns desafios me tentam por serem demasiado complexos e por exigirem paciência e diligência. Às vezes no percurso perde-se, desgasta-se um pouco do esmalte dos dentes. Então considero que saí desfavorecida, que permiti levarem algo de mim. Porém ao olhar, percebo que não perdi nada, apenas permutei o meu sabor pela sua impressão. A crocância não pode ser sentida sem a quebra. Mas como crer nela se não há o desafio de quebrar? Se a mandíbula é forçada, sente-se dor. Porém se, para desvencilhar a dificuldade, eu tirar da minha boca e resolver esmagar com meus pés, que deleite terei?Somente a minha língua pode transmitir a mim o sabor.


Arriscar-me-ei a quebrar um dente por uma especiaria que não posso afirmar que doce é? E se tão alto preço não for galardoado com grandeza? Mas nada o prêmio é se a tentativa não me trouxer algum aprendizado. Portanto, não há riscos se o próprio desafio constitui uma vitória.


Quando me vejo, irrefletidamente introduzi a iguaria à boca, se dura ou crocante não sei. Se doce, amarga ou apimentada é impossível afirmar com a visão e o tato. No entanto, os sabores que já experenciei me motivam o suficiente a prosseguir com o ato. Agridoce, suave, encorpado, não haveria um favorito se não fossem todos conhecidos. Então me disponho, me encorajo e acredito que posso cuspir e eliminar o que não for do meu agrado. Porém frusto-me ao saber que desde a boca há efetiva absorção de um ou outro nutriente. A troca já ocorre muito mais cedo do que eu cria. Frusto-me ao lembrar que a via sublingual é muito utilizada para medicamentos que necessitam rapidamente ir para a corrente sanguínea. A velocidade de uma reação como essa é superior ao tempo necessário para minhas análises e sentimentos.


Já está em minha boca e mesmo que eu vomite, é impossível apagar o registro. Boas ou más, as memórias existem para nos remeter a uma alegria ou arrependimento. Enquanto me mantenho tola nestas considerações, a saliva sem minhas ordens, desintegra a iguaria.


A casca é mesmo dura. E esse nem era o docinho mais atraente da caixa. Não saberia definir os motivos da minha escolha. Eu forço e então à terceira tentativa ele se desfaz. Estacionada na sensação gustativa, o meu cérebro busca em diversos arquivos onde há a compatibilidade deste momento. As papilas são inundadas por um mar que não afoga, mas liberta. Os olhos fecham-se, para não distrair o instante. O ouvido ouve uma música conhecida. É uma liberdade encontrar um sabor que traz à lembrança um gosto de si mesmo. De que ainda há doçura. É semelhante a um lugar secreto que se encontra e se é encontrado por ele.


Antes que engolisse tudo, tive a certeza de que por alguns instantes havia voltado novamente para minha casa, onde a cozinha exala o aroma de biscoitos assados e onde as janelas e os ventos respondem aos meus devaneios sussurrando em meus ouvidos. Mesmo finalizando a deglutição, o gosto eterniza-se, pois já existiu e agiu dentro de mim. Já foi para a corrente sanguínea e já faz parte da minha constituição.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Sublimar e ressublimar

Um pingo cai em volta de uma pequena folha, e o vento leva-a a rolar. O pingo pretensioso, por si só, em ser um notável em meio à imensidão branco-acinzentada, aventura-se a confiar no vento. Este, porém não lhe dá tempo para pensar e medir conseqüências. Somente o conduz pelo caminho à sua frente, em que outros tantos pingos solidificados passam a acreditar.


Conforme rolam pelo caminho, sua capacidade de agregação aumenta, e então muitos pingos e uma folha tornam-se uma formosa bola. E passa a ser natural o percurso a trilhar, como se cada tronco, pedra e planície apenas fizessem parte de lhe acrescentar o essencial e eliminar-lhe seus falsos adornos. Sua forma não consegue mais ser disforme, pontiaguda ou irregular. Já não há mais medo do vento forte que sopra, pois a aglomeração é tamanha que a gravidade já tomou seu posto de comandante.


A aparência se torna tão visível e consistente. O pingo que a pouco se envolveu com a folha, regozija-se do prodigioso feito. Eis uma bola, uma tremenda bola! Mesmo imperceptível à magnitude do ato, o contemplar sua realização através daquele movimento circular constante e progressivo já lhe traz a satisfação que deixa mudo todo anseio.


O comandante, porém, segue cabalmente as ordens, ignorando qualquer realidade interior, e o que era uma gigante e imponente bola de neve, precipita-se em uma frondosa árvore, espalhando seus muitos pingos e dando fim a tudo.


No incidente, o pingo separa-se de sua folha por não menos de três palmos e não consegue ir ao seu encontro. Por um momento, sua vontade e determinação parecem dar a ele o poder da mobilidade aérea, e por dentro ele sorri. Todavia, este domínio não lhe pertence, e sente como de maneira sutil, o sol lhe aquecer, tornando-o fluído e depois vapor.


A obediência o carrega a cumprir seus deveres, e ao céu mais uma vez torna. No entanto, quando se é diferente, nenhuma coletividade é capaz de padronizá-lo à igualdade. Nenhuma lei lhe é capaz de deter e nenhum ambiente lhe é suficientemente hostil ou inoportuno a ponto de torná-lo nulo, comum. Nada lhe podem matar as moléculas que fervilham em seu interior e que lhe solicitam um contra-ataque. E o pingo então decide tornar à sua folha, pois mesmo fazendo parte de um todo homogêneo, só o conhecer o vento, o frio, a solidez e a natureza lhe fazem perceber que a existência terá sabor singular se lhe obedecer ao anseio latente de sua alma. E nem mesmo mil verões serão capazes de lhe persuadir a desistir de ser novamente uma bola de neve.